Diretor de marketing explica sua trajetória no Japão e fala sobre a estrutura do mercado estrangeiro

Meu nome é Wilson. Tenho 40 anos de idade e sou natural do Rio de Janeiro. Estou vivendo no Japão desde 2004. Hoje em dia trabalho como consultor de marketing e eu tive um pouco de história no decorrer desse tempo.

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Me conte um pouco sobre a sua trajetória aqui no Japão.

    No começo, como 99% das pessoas que vieram do Brasil, a intenção era trabalhar, juntar dinheiro e ter uma vida relativamente confortável, no Brasil a vontade de se emancipar, ter a liberdade financeira e conhecer a terra natal dos meus avós sempre me gerou essa vontade de vir para cá. Eu vim casado e a ideia de ficar independente financeiramentesomado à curtir um país de primeiro mundo foi muito sedutora.A experiência da fábrica no início foi boa enquanto durou e houve pontos bem determinantes para mudar meu caminho, trabalhar em fábrica a partir de certo momento não me trouxe motivação, nenhuma habilidade minha iria interferir no trabalho que estava fazendo.

    Em 2007 nasceu meu primeiro filho e eu não tinha tempo pra curtir minha família, o trabalho no Japão requer muitas horas físicas, horas extras, trabalhar final de semana e isso me motivou a procurar algo que me ocupasse, me desafiasse e que fizesse algum sentido.A minha primeira ideia foi fazer um curso de webdesign, cada site é diferente do outro, isso requer interação com pessoas diferentes e assim você tem desafios novos todos os dias.

    Através do meu professor foi me oferecida uma proposta de trabalhar em uma grande empresa da comunidade, fui trabalhar dentro do escritório onde fazia-se o operacional, eu cuidava das promoções, inseria produtos e coisas básicas.Dentro desse ambiente eu comecei a me descobrir como uma pessoa que gosta de desafios.Ainda dentro daquele ambiente eu me senti limitado a executar tarefas apenas e não coloca-las em prática, junto de um amigo dessa empresa, começamos um projeto paralelo, saí do emprego e passei a trabalhar autônomo, oferecendo esse tipo de serviço que aprendi na empresa. Por volta de 2009, recebi o convite para reformular o site de uma empresa concorrente da que trabalhei, recebi uma proposta bem desafiadora, receberíamos pouco, porém, se conseguirmos êxito no trabalho, iríamos ganhar bem.Lá eu fiquei responsável por anúncios da revista, banners pro site e tratar imagens de produtos, o site acabou virando uma referência e 3 anos depois eu fui convidado a assumir a diretoria de marketing dessa empresa.Foram 8 anos trabalhando lá, gerenciando time e sendo responsável pelo site, isso tudo me deixou bem motivado. Pois, foi um dos motivos para eu ter saído da fábrica.

Você acha que futuramente essa demanda vai diminuir?

    Eu acho que já esta caindo, na empresa que trabalhava, falava que as futuras gerações já não eram o nosso perfil de cliente. Meus filhos nasceram e cresceram aqui, a mentalidade deles é de japonês. Em casa nós comemos comida brasileira, mas eu sei que no futuro eles não terão uma dependência da comida como eu tenho,  é a referencia que eles tem com os amigos e o convívio no dia a dia. Além de dominar o idioma japonês. A solução são as empresas oferecerem um serviço de qualidade independente de língua ou etnia para não haver essa dependência.

   Hoje, a comunidade Filipina é muito maior do que a brasileira. Houve um “Boom” de Vietnamitas, então, o fluxo migratório para esse setor de trabalho que a nossa comunidade ocupa está sempre mudando. A nossa condição aqui no Japão depende muito da ancestralidade. O Yonsei tem que lidar com muito mais burocracias do que eu como Sansei tive que lidar. Mas, nós estamos ficando velhos, daqui a pouco estamos saindo do mercado de trabalho.

Nas empresas que você trabalhou teve alguma coisa que você aprendeu que gostaria de compartilhar?

    Muitas, você precisa lidar com vários tipos de desafios, aprender a se relacionar pessoalmente, se colocar em uma hierarquia e a responsabilidade de você criar, além de mudanças inevitáveis no percurso. Principalmente no Japão, onde pode ocorrer uma crise causando uma mudança no planejamento da empresa. Na minha posição eu precisava deixar os gerentes motivados, pois eles interagiam com os clientes, exige muito relacionamento e muito jogo de cintura.

Eu fiquei sabendo que você esta se mudando para o Canadá. Qual o motivo de você estar indo? principalmente com família e filhos.

    Existe alguns motivos, um deles é que minha esposa também trabalhou em fábrica, e com o tempo ela teve a mesma necessidade que eu. Queria se provar e ser mais participativa no trabalho que estava fazendo. Ela sentiu vontade de começar a dar aulas de inglês, até que ela teve a chance de trabalhar em uma creche como assistente de professora dando aula de inglês e se apaixonou completamente por isso. Ela teve até mais êxito que eu nessa parte, pois eu dependia de uma empresa focada para comunidade. Já a creche era para crianças japonesas, não tem nenhum braço na comunidade, mas com o tempo veio a frustração nela de saber que ela nunca poderia ser uma professora aqui, ou que ela nunca teria chance de dar aula em uma escola internacional por não ter as credenciais. Então houve a necessidade de um diploma, e o Canadá é um dos países que ofereceu essa oportunidade. Aqui, eu também comecei a me sentir limitado no campo que eu atuo. Pois, ele pede uma boa comunicação, um bom relacionamento com as pessoas de alto escalão e que eu entenda bem da cultura. Infelizmente meu domínio da língua japonesa não me possibilita entrar em uma empresa japonesa e executar o que eu executava na outra empresa.

    Eu nasci no Rio de Janeiro, no Brasil em si, você aprende a lidar com diferenças culturais. Você conhece descendentes de várias nacionalidades, e eu percebi que meus filhos aqui não estão tendo essa oportunidade. Só estão tendo acesso àperspectiva japonesa. O Canadá, assim como o Japão, também está necessitando de mão de obra. Mas, a diferença é que o Canadá é um país mais miscigenado, e isso seria uma ótima experiência para os meus filhos, especialmente na idade deles.Além de que no momento que eu pisar lá, deixo de ter o problema do idioma.

Como você faz para selecionar um projeto para trabalhar? Ou até mesmo um emprego, você tem algum critério?

    O critério deve ser algo que te motiva, algo adequado. O qual você teria condições de contribuir, mas muitas vezes são as próprias condições. Se você não estiver em uma situação favorável não se pode escolher. Eu sempre tive em mente poder ajudar pessoas que não tiveram minhas experiências e poder ensinar, o meu objetivo com meus clientes é que eles possam ser independentes e com base nisso, contratar os serviços necessários.

    Os japoneses são muito sistemáticos, não toleram atraso. Tem uma produção e você precisa dar conta dela, não tem muito jogo de cintura e não tem muita desculpa que você possa oferecer. Eu aprendi certos valores bastante significantes, a gente acaba dando muita desculpa, mesmo sem necessidade e mesmo quando acontece algum acidente ou imprevisto isso não importa para eles. Você precisa aprender a assumir. Muitas pessoas podem achar um exagero, mas eles tem uma sociedade com uma história bem longa e deram certo na teoria. É um país de primeiro mundo e o sistema deles é esse. Eu não chego a pensar nisso como uma coisa ruim da nossa comunidade, porque desde cedo nós temos que aprender a ter jogo de cintura, a estrutura no Brasil é diferente. Você não tem garantia do trem chegar no horário e precisamos aprender a lidar com imprevistos. No Japão, os imprevistos são outros, como desastres naturais, onde não tem muito o que fazer. 

Com a sua ida para o Canadá, você está com algum objetivo pessoal ou para sua carreira?

    São três pontos que estamos levando em consideração com essa mudança. A profissionalização da minha esposa, eu ter novas experiências profissionais e as experiências que meus filhos irão adquirir com isso. Eu não estou com um objetivo muito certo, a ideia é que se funcionar, nós vamos continuar por lá. Porque há outros motivos, como ficar mais próximo do Brasil, por conta de familiares, e as crianças terem que lidar com pessoas e culturas diferentes. Eu acho que vai ser muito bom para elas, porque no final é isso que nos faz diferente. O jogo de cintura pode ter dois lados, um lado ruim e um lado bom. O lado ruim é aquele de sempre querer dar uma desculpa, uma maneira de justificar seus atos, mas o lado bom é você ter sacadas, ideias e soluções que de repente um povo sistemático como os japoneses, não teriam. É pensar muito fora da caixa para eles. Esse é nosso diferencial, não é atoa. No futebol, o Brasil é uma potência, porque a gente limita a drible, o imprevisto. Aquilo que sai do nada, viver num país que te exige isso o tempo todo, te ajuda a contornar problemas e compreender pessoas de diferentes culturas, sem achar que elas estão erradas  só porque são diferentes. Somando esses fatores, o Canadá seria uma boa opção.

Caso aconteça algum imprevisto e você tenha que deixar o Canadá, você voltaria para o Japão ou para o Brasil?

    Para o Japão, eu gosto muito do Japão. Foi o país em que eu me desenvolvi profissionalmente, que criei minha família, é uma questão de experimentar algo novo que está me motivando com a mudança. Infelizmente eu não vejo como voltar para o Brasil agora, porque lá eu sei que não vou conseguir oferecer o que ofereço para os meus filhos. Estou considerando muitos aspectos como a segurança, que hoje o Brasil não oferece. O lado triste é estar criando meus filhos longe da família e eu falo isso com um certo desgosto, porque eu gosto muito do Brasil. Mas, pensando nos meus filhos, o Japão é um país muito mais acessível nesse aspecto.

Você teria alguma dica para jovens que estejam no Japão de como viver e trabalhar melhor?

    Domine o japonês, eu não quero entrar no mérito do tipo de trabalho que cada um tem que fazer, isso cada um tem que decidir e procurar dentro de si o que te deixa motivado todo dia. Eu encontrei muitas pessoas que trabalhavam em fábrica e eram felizes e cada lugar tem seus prós e contras, não cabe a mim ficar definindo o que cada um vai fazer. Cada um precisa achar o que lhe faz bem, o que deixa sua vida mais prazerosa. Mas com certeza o domínio do idioma japonês estando no Japão é obrigatório. Eu não aprendi por puro comodismo, meu trabalho não demanda, mas ao mesmo tempo me limita. O meu cargo não me permite trabalhar em uma empresa japonesa, uma vez que eu não domino o idioma. E o Japão é uma sociedade envelhecida, hoje o jovem tem muita oportunidade de ocupar bons cargos e ter boas profissões aqui, mas ter o domínio do idioma japonês é essencial. 


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